Governança como Vantagem

Orquestração de Agentes de IA: Do Protótipo à Produção

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Thiago Victorino
12 min de leitura

A maioria dos agentes de IA que funcionam em demonstrações vai falhar em produção. Não por falta de inteligência — por falta de infraestrutura.

Segundo o Gartner, mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até 2027 por complexidade e custo não antecipados. A McKinsey estima que menos de 10% das organizações conseguiram escalar agentes em qualquer função individual. Esses números não refletem uma crise de modelos ou de prompts. Refletem uma crise de engenharia de sistemas.

O problema é estrutural: construímos agentes como se fossem scripts inteligentes, mas esperamos que se comportem como sistemas distribuídos. Entre o protótipo e a produção existe um abismo — e o nome desse abismo é orquestração.

O Abismo entre Protótipo e Produção

Um agente em ambiente de desenvolvimento é simples. Ele recebe uma instrução, raciocina, chama ferramentas, retorna um resultado. Se falhar, você reinicia o notebook e tenta de novo.

Em produção, nada disso funciona.

Considere o que acontece quando um agente de análise financeira precisa processar milhares de documentos em paralelo, cada um exigindo múltiplas chamadas de API, decisões condicionais e aprovações humanas. O que era um loop elegante no Jupyter vira um pesadelo operacional:

  • Perda de estado: O agente processa 800 documentos, a API do LLM retorna timeout no 801. O que acontece com o progresso? Sem execução durável, ele recomeça do zero.
  • Sem semântica de retry: Uma chamada de API falha por rate limit. O agente não sabe se deve esperar, tentar de novo ou escalar.
  • Execução invisível: O agente tomou uma decisão errada no documento 347. Ninguém percebe até o resultado final estar comprometido.
  • Autonomia descontrolada: O agente decide usar uma ferramenta não autorizada para resolver um caso excepcional. Nenhum guardrail o impediu.

Esses não são problemas teóricos. São os motivos concretos pelos quais pilotos promissores morrem antes de chegar à produção.

Padrões de Orquestração que Funcionam

A engenharia de software distribuído já resolveu problemas semelhantes décadas atrás. O que falta à comunidade de IA agêntica é aplicar essas soluções — adaptadas ao contexto não determinístico dos LLMs.

Padrão 1: Agente como Worker

O primeiro padrão é o mais fundamental: encapsular o agente como uma tarefa dentro de um fluxo de trabalho maior.

Em vez de o agente ser o sistema, ele se torna um componente do sistema. Um orquestrador define o fluxo — quais agentes são invocados, em que sequência, com quais dependências — e cada agente executa sua parte como um worker.

Isso resolve três problemas de uma vez:

  1. Composição: Agentes especializados podem ser combinados sem que um precise conhecer o outro
  2. Substituição: Um agente com falha pode ser substituído sem reescrever o fluxo
  3. Governança: O orquestrador registra cada invocação, entrada e saída

A Anthropic documentou esse padrão explicitamente: fluxos de trabalho com agentes devem favorecer composição sobre complexidade. A maioria dos problemas que parecem exigir um mega-agente na verdade exige vários agentes simples, bem orquestrados.

Padrão 2: Execução Durável

Se existe um conceito que deveria ser obrigatório para qualquer equipe construindo agentes em produção, é este: execução durável.

A ideia é direta. O estado de cada passo da execução persiste automaticamente. Se o processo falha — por timeout, crash ou reinício do servidor — ele retoma exatamente de onde parou, sem perda de dados ou trabalho.

Pense como RAM para workflows: assim como a memória RAM mantém o estado do programa durante a execução, a execução durável mantém o estado do fluxo de trabalho mesmo quando a infraestrutura subjacente falha.

Na prática, isso significa:

  • Um agente que processou 800 de 1000 documentos retoma do 801 após um crash
  • Chamadas a APIs externas têm retry automático com backoff exponencial
  • O estado de aprovações humanas persiste indefinidamente — o workflow espera horas, dias ou semanas sem consumir recursos

A Grid Dynamics publicou um estudo detalhado sobre a migração de um sistema de deep research de LangGraph para Temporal, motivada exatamente pela necessidade de execução durável. O resultado: workflows que antes precisavam ser reiniciados manualmente agora sobrevivem a falhas de infraestrutura sem intervenção.

Padrão 3: Human-in-the-Loop como Espectro

A participação humana não é binária. Não é “agente autônomo” versus “agente supervisionado”. É um espectro com pelo menos três posições:

  • Human-in-the-loop: O agente propõe, o humano aprova cada ação. Adequado para decisões de alto risco — financeiras, regulatórias, médicas.
  • Human-on-the-loop: O agente executa, o humano monitora e intervém quando necessário. O modelo ideal para a maioria dos cenários de produção.
  • Human-out-of-the-loop: O agente executa sem supervisão direta. Reservado para tarefas bem delimitadas, com baixo risco e alta previsibilidade.

A questão crítica para produção é: como você implementa esse espectro na prática?

Com orquestração, isso se torna significativamente mais simples. O workflow define pontos de pausa onde aguarda aprovação humana. O agente não precisa saber que está sendo supervisionado — ele simplesmente executa sua parte e o orquestrador gerencia o fluxo de decisão.

Padrão 4: Coordenação Paralela e Sequencial

Agentes em produção raramente trabalham sozinhos. Um sistema de análise de risco pode precisar que três agentes analisem o mesmo caso sob perspectivas diferentes, em paralelo, e que um quarto agente sintetize os resultados em sequência.

Sem orquestração, implementar isso vira código espaguete: callbacks aninhados, gerenciamento manual de threads, sincronização artesanal.

Com orquestração, você define: “Execute A, B e C em paralelo. Quando todos terminarem, execute D com os resultados.” O orquestrador cuida do resto — timeouts, falhas parciais, retry de componentes individuais.

O Ecossistema de Ferramentas

O mercado de orquestração para IA agêntica amadureceu consideravelmente. Três ferramentas se destacam, cada uma com uma filosofia distinta.

Temporal

Temporal é a ferramenta de referência para execução durável. Nasceu como fork do Cadence (Uber) e se tornou o padrão de facto para workflows de missão crítica.

Filosofia: Code-first. Você escreve workflows como código normal na sua linguagem preferida (Python, Go, Java, TypeScript). O framework cuida da durabilidade transparentemente.

Força principal: Execução durável nativa. Não é um recurso adicionado — é a premissa arquitetural. Cada linha de código é automaticamente persistida e recuperável.

Adoção relevante: A OpenAI usa Temporal como infraestrutura de orquestração para o Codex, seu agente de engenharia de software.

Limitação: Curva de aprendizado significativa. Requer mudança de mentalidade sobre como escrever código.

Orkes Conductor

Conductor foi criado pela Netflix para orquestrar microsserviços em escala. Orkes é a versão gerenciada, com extensões específicas para IA.

Filosofia: Plataforma gerenciada com definição declarativa de workflows. Você descreve o fluxo em JSON/YAML e a plataforma executa.

Força principal: Integração nativa com LLMs, incluindo tarefas de IA como componentes de primeira classe. Suporte embutido para human-in-the-loop.

Adoção relevante: Tesla e American Express utilizam Conductor em produção para orquestração de fluxos complexos.

Limitação: Vendor lock-in. A abordagem gerenciada troca flexibilidade por conveniência.

LangGraph

LangGraph é a resposta do ecossistema LangChain ao problema de orquestração. Projetado especificamente para agentes de IA.

Filosofia: Agent-first. Modela agentes como máquinas de estado com grafos direcionados.

Força principal: Integração nativa com o ecossistema LangChain. Persistência de estado entre turnos de conversação. Ideal para prototipagem rápida de lógica agêntica.

Limitação: Não foi projetado para os mesmos cenários de durabilidade e escala que Temporal ou Conductor. É excelente como camada de lógica do agente, mas pode não ser suficiente como camada de orquestração de produção.

A Arquitetura de Duas Camadas

A abordagem mais robusta que tenho observado em projetos de produção é a arquitetura de duas camadas:

  • Camada de orquestração: Temporal ou Conductor gerencia o fluxo geral — sequência, paralelismo, retries, human-in-the-loop, persistência de estado
  • Camada de lógica agêntica: LangGraph (ou frameworks similares) gerencia o raciocínio interno de cada agente — decisões, uso de ferramentas, memória conversacional

Essa separação respeita o princípio de responsabilidade única. O orquestrador não precisa entender como o agente raciocina. O agente não precisa saber como o workflow gerencia falhas.

A Grid Dynamics documentou exatamente essa transição: começaram com LangGraph como solução completa, e conforme as exigências de produção cresceram, adicionaram Temporal como camada de orquestração. O LangGraph continuou gerenciando a lógica dos agentes individuais.

O Que Produção Realmente Exige

Ferramentas resolvem parte do problema. Mas a diferença entre um sistema que funciona e um que sobrevive em produção está nos aspectos não funcionais.

Observabilidade

Se você não consegue ver o que seu agente está fazendo, você não tem um sistema de produção — tem uma caixa preta com permissões de API.

A observabilidade para agentes de IA vai além de logs tradicionais:

  • Traces distribuídos: Cada decisão do agente, cada chamada de ferramenta, cada transição de estado deve ser rastreável de ponta a ponta. OpenTelemetry é o padrão emergente.
  • Métricas de raciocínio: Não basta saber que o agente chamou uma API. É preciso saber por que escolheu essa API e não outra.
  • Detecção de anomalias: O agente está gastando 10x mais tokens que o habitual? Está em loop? Está acessando ferramentas inesperadas?

A Florence Healthcare implementou observabilidade granular em seus agentes de processamento de documentos clínicos. O resultado não foi apenas visibilidade — foi a capacidade de identificar e corrigir degradações de qualidade antes que afetassem pacientes.

Resiliência

Produção significa que coisas vão falhar. A questão é como o sistema responde.

Padrões essenciais:

  • Circuit breaker: Se uma API externa está instável, o sistema para de chamá-la temporariamente em vez de acumular falhas
  • Retry com backoff: Tentativas espaçadas exponencialmente, não loops frenéticos
  • Fallback gracioso: Se o agente principal falha, existe um caminho alternativo que preserva o resultado, mesmo que com menor qualidade
  • Timeout explícito: Cada operação tem um limite de tempo definido — nenhum agente pode executar indefinidamente

Segurança e Controle de Acesso

Cada agente é um vetor de risco potencial. Em produção, isso exige:

  • Princípio do menor privilégio: Cada agente acessa apenas as ferramentas e dados necessários para sua tarefa específica
  • Auditoria completa: Cada ação é registrada com contexto suficiente para reconstrução posterior
  • Limites de gasto: Controles sobre consumo de tokens e chamadas de API para evitar custos descontrolados
  • Sandboxing: Execução de código gerado pelo agente em ambientes isolados

Framework de Decisão

Nem toda equipe precisa da mesma ferramenta. A escolha depende do cenário.

CenárioRecomendação
Protótipo rápido de lógica agênticaLangGraph
Workflow de produção com requisitos de durabilidadeTemporal
Plataforma gerenciada com integração nativa de IAOrkes Conductor
Sistema de produção complexo e escalávelTemporal (orquestração) + LangGraph (lógica)
Equipe sem experiência em sistemas distribuídosOrkes Conductor
Requisitos regulatórios severos de auditoriaTemporal ou Conductor com observabilidade customizada

A pergunta certa não é “qual é a melhor ferramenta”. É “qual combinação de ferramentas atende aos requisitos não funcionais do meu sistema em produção”.

Casos Reais

Saúde: Florence Healthcare + Orkes Conductor

Agentes de processamento de documentos clínicos com exigências regulatórias estritas. Usando Orkes Conductor como plataforma de orquestração, a implementação combinou execução durável para garantir que nenhum documento fosse perdido, human-in-the-loop para aprovações médicas, e observabilidade granular para compliance.

O fator decisivo não foi a qualidade do modelo. Foi a infraestrutura que garantiu rastreabilidade e recuperação de falhas em um contexto onde erros têm consequências diretas para pacientes.

Cibersegurança: SOC com Agentes Orquestrados

Centros de operações de segurança (SOC) estão entre os primeiros a adotar agentes orquestrados em produção. Implementações como o IBM ATOM e Microsoft Copilot for Security seguem um fluxo comum: um agente de triagem analisa alertas em paralelo, agentes especializados investigam os mais críticos, e um agente de síntese gera o relatório para o analista humano. O Microsoft Copilot for Security alcançou F1 Score de 0.87 em triagem de incidentes.

A orquestração resolve um problema específico aqui: a coordenação temporal. Alertas chegam continuamente, agentes precisam ser alocados dinamicamente, e decisões de escalação dependem do contexto acumulado — tudo isso com requisitos de latência de segundos.

Pesquisa: Grid Dynamics

O caso mais instrutivo é o da Grid Dynamics, documentado em detalhes. A equipe construiu um sistema de deep research usando LangGraph. Funcionou bem em desenvolvimento. Ao mover para produção, encontraram exatamente os problemas previsíveis: perda de estado em falhas, ausência de retry semântico, dificuldade de monitoramento.

A solução foi adicionar Temporal como camada de orquestração, mantendo LangGraph para a lógica dos agentes. O resultado: um sistema que sobrevive a falhas de infraestrutura, oferece visibilidade completa do fluxo e permite intervenção humana em pontos definidos.

Orquestração É Governança

Existe uma tendência em tratar orquestração como problema puramente técnico — uma questão de infraestrutura que a equipe de engenharia resolve. Essa visão é incompleta.

Orquestração é o mecanismo que implementa governança na prática.

Quando você define um workflow com pontos de aprovação humana, está implementando política de supervisão. Quando você configura observabilidade em cada decisão do agente, está criando trilha de auditoria. Quando você estabelece circuit breakers e limites de gasto, está impondo controles de risco. Quando você define princípio do menor privilégio para cada agente, está aplicando segurança organizacional.

As organizações que tratam orquestração como governança — não como detalhe de implementação — são as que conseguem escalar agentes de IA com confiança.

Na Victorino Group, vemos isso repetidamente: as equipes que chegam à produção mais rápido não são as que escolheram o modelo mais capaz ou o framework mais sofisticado. São as que investiram em orquestração desde o início, porque entenderam que o gap entre protótipo e produção não é inteligência. É infraestrutura governada.


A Victorino Group assessora organizações na implementação de sistemas de IA agêntica para produção — com orquestração, observabilidade e governança desde o primeiro dia.

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