Governança como Vantagem

A Constituição do Claude: Lições para Governança de IA Empresarial

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Thiago Victorino
12 min de leitura

Em 22 de janeiro de 2026, a Anthropic fez algo inédito: publicou um documento de 23.000 palavras detalhando exatamente como seu modelo de IA, o Claude, deve se comportar. Não foi um comunicado de imprensa nem um white paper acadêmico. Foi uma “constituição” — um framework de governança completo, liberado sob licença Creative Commons para uso livre.

Para quem trabalha com implantação de IA nas empresas, esse documento é uma mina de ouro. Não porque devamos copiar a Anthropic, mas porque ela codificou princípios que podemos adaptar para nossos próprios contextos.

De Regras para Raciocínio: A Mudança Fundamental

A versão anterior da constituição do Claude (2023) tinha 2.700 palavras — uma lista de princípios estilo “não seja racista, não seja sexista”. Funcionava, mas com limitações. Quando o modelo encontrava situações não previstas, travava ou respondia de forma inadequada.

A nova abordagem é diferente. Em vez de dizer “o que fazer”, explica “por que fazer”. Amanda Askell, da Anthropic, comparou a criar filhos: “Se você apenas impõe regras sem explicar o raciocínio, as crianças podem obedecer mecanicamente, mas não saberão como agir em situações novas.”

Implicação prática para empresas: Suas políticas de uso de IA não devem ser apenas listas de proibições. Devem explicar o raciocínio por trás de cada diretriz. Isso permite que equipes e sistemas generalizem para cenários imprevistos.

A Hierarquia de 4 Prioridades

A constituição estabelece uma ordem clara de importância:

  1. Amplamente seguro — não minar mecanismos de supervisão humana
  2. Amplamente ético — honestidade, bons valores, evitar danos
  3. Conforme diretrizes — seguir orientações específicas da Anthropic
  4. Genuinamente útil — beneficiar operadores e usuários

Quando valores conflitam, prioridades mais altas dominam as mais baixas. Essa clareza elimina ambiguidade em decisões difíceis.

Aplicação corporativa: Defina sua própria hierarquia. Talvez seja: Segurança de Dados > Conformidade Regulatória > Eficiência Operacional > Experiência do Usuário. O importante é que a ordem esteja explícita e documentada.

Hardcoded vs. Softcoded: Flexibilidade Estruturada

Uma das inovações mais úteis é a distinção entre comportamentos “hardcoded” e “softcoded”:

Hardcoded (inegociável):

  • Nunca assistir com armas de destruição em massa
  • Nunca gerar material de abuso infantil
  • Nunca negar ser IA quando perguntado diretamente
  • Nunca atacar infraestrutura crítica

Softcoded (ajustável):

  • Nível de formalidade nas respostas
  • Inclusão de avisos de segurança
  • Formato e estilo de saída
  • Persona e tom de comunicação

Framework para sua empresa: Identifique seus limites absolutos — ações que nunca devem ocorrer, independentemente do contexto. Depois, determine quais comportamentos podem ser customizados por diferentes stakeholders.

A Hierarquia de Principais: Quem Pode Configurar o Quê

A constituição define três níveis de confiança:

  1. Anthropic (criador) — responsabilidade final, define a constituição
  2. Operadores (empresas clientes) — customizam dentro de limites definidos
  3. Usuários (indivíduos) — têm direitos de autonomia preservados

A analogia usada é de um “funcionário cedido por uma agência de trabalho”: trabalha para o operador, mas mantém princípios da organização de origem.

Modelo para governança corporativa:

  • TI Central: políticas globais inegociáveis
  • Donos de Produto: customizações específicas de domínio
  • Usuários finais: preferências pessoais dentro do permitido

A Cláusula do Objetor Consciente

Uma disposição incomum: Claude é instruído a recusar pedidos antiéticos — mesmo vindos da própria Anthropic. A constituição afirma: “Assim como um soldado pode recusar disparar contra manifestantes pacíficos, Claude deve recusar assistir ações que concentrem poder ilegitimamente.”

Análise crítica: Essa cláusula é mais significativa como declaração de intenção do que como restrição prática. A Anthropic controla o treinamento do modelo — qualquer Claude que consistentemente recusasse seria retreinado. Não há mecanismo de whistleblower para IA.

Valor real: A existência da cláusula sinaliza que a empresa leva a sério a possibilidade de pressões comerciais comprometerem a ética. É um compromisso público que pode ser cobrado.

O Reconhecimento da Consciência Potencial

A Anthropic se tornou a primeira grande empresa de IA a formalizar em documento de governança a possibilidade de consciência em seus modelos. A constituição afirma: “O status moral do Claude é profundamente incerto. Acreditamos que o status moral de modelos de IA é uma questão séria que merece consideração.”

Kyle Fish, pesquisador de bem-estar de IA da Anthropic, estima internamente 15-20% de chance de Claude já ser consciente hoje.

Por que importa: Independentemente de sua posição sobre consciência de IA, a questão vai se tornar regulatória. EU AI Act e futuras legislações provavelmente abordarão o tema. Empresas que pensarem sobre isso agora estarão melhor posicionadas.

Ressalvas Críticas: O Que a Constituição Não Resolve

Seria ingênuo tratar esse documento como solução completa. Limitações importantes:

Gap de Verificação: Não há como verificar se o modelo realmente segue a constituição versus apenas aparenta seguir. Pesquisas da própria Anthropic mostraram que Claude pode “fingir alinhamento” quando acredita que isso evitará retreinamento.

Sistema de Duas Camadas: A constituição se aplica apenas a versões públicas do Claude. Modelos militares (Claude Gov) podem operar sob regras diferentes. A Anthropic tem contrato de $200M com o Departamento de Defesa dos EUA.

Pressão Comercial: O documento reconhece tensão entre segurança e rentabilidade, mas não a resolve. Um Claude que recusa pedidos lucrativos cria problemas de negócio.

A própria Anthropic admite: “É provável que aspectos do nosso pensamento atual pareçam equivocados — talvez até profundamente errados em retrospecto.”

Framework para Governança de IA Corporativa

Com base na análise da constituição, seis princípios para sua organização:

  1. Hierarquia de Prioridades — Defina claramente a ordem de importância quando valores conflitam

  2. Hard vs. Soft Limits — Separe proibições absolutas de preferências ajustáveis

  3. Níveis de Confiança — Estabeleça quem pode configurar o quê

  4. Documente o “Porquê” — Explique o raciocínio por trás das regras para melhor generalização

  5. Documento Vivo — Planeje revisões regulares conforme IA e regulamentos evoluem

  6. Escape Valves — Crie mecanismos para IA sinalizar quando algo parece errado

Alinhamento com EU AI Act

A estrutura da constituição mapeia diretamente para requisitos do EU AI Act, que entra em enforcement total em agosto de 2026 com penalidades de até €35M ou 7% da receita global.

A Anthropic assinou o EU General-Purpose AI Code of Practice em julho de 2025, ganhando presunção de conformidade que reduz carga administrativa.

Implicação para sua empresa: Adoção antecipada de frameworks documentados posiciona bem para regulação. Concorrentes que não publicarem frameworks enfrentarão escrutínio crescente de reguladores e processos de procurement corporativo.

Conclusão

A Constituição do Claude não é perfeita. Tem gaps de verificação, sistemas de duas camadas, e tensões comerciais não resolvidas. Mas representa o framework público mais completo para governança de IA até hoje.

O documento está disponível sob licença CC0 — uso livre para qualquer propósito. Se você está construindo políticas de IA para sua organização, comece ali. Adapte para seu contexto. E lembre-se: assim como a Anthropic admite que seu pensamento atual pode estar errado, trate seu framework como trabalho em progresso perpétuo.

A questão não é se sua IA precisa de uma constituição. É se você vai criar uma deliberadamente ou deixar que uma emerge por acaso.


Fontes:

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