O Problema do Controle de IA

A Curva de Automação É, Na Verdade, Uma Curva de Governança

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Thiago Victorino
10 min de leitura

A McKinsey publicou no final de janeiro um relatório chamado “The Automation Curve in Agentic Commerce.” É a sequência do estudo sobre comércio agêntico de outubro de 2025 e apresenta um framework de seis níveis para delegação de agentes de IA no comércio --- do N0 (assinaturas baseadas em regras) ao N5 (negociação multi-agente autônoma).

A projeção: de 3 a 5 trilhões de dólares em valor global até 2030.

O framework é sólido. A análise técnica é competente. E a conclusão central --- que mais automação nem sempre é melhor --- valida algo que temos dito há tempo: o objetivo não é maximizar delegação, é encontrar o ponto ótimo de delegação.

Mas falta algo fundamental na análise. E é exatamente o que falta que importa.

O Que o Framework Descreve

Os seis níveis do McKinsey mapeiam o que agentes de IA podem fazer no comércio:

N0 --- Assinaturas baseadas em regras. Subscribe & Save. O consumidor define uma regra fixa (“me envie café todo mês”) e o sistema executa cegamente. Não há inteligência --- é automação frágil que ignora contexto.

N1 --- Assistência cognitiva. O agente pesquisa, compara, sugere. Mas não executa. É um assistente de compras que entrega recomendações para o humano decidir.

N2 --- Orquestração. O agente monta o carrinho, prepara o checkout, mas espera aprovação humana para finalizar. Já há ação, mas com supervisão direta.

N3 --- Delegação baseada em regras. O agente executa o fluxo completo dentro de parâmetros definidos. Compra automaticamente se o preço estiver abaixo de X, a marca for Y, o prazo de entrega for Z. Escala para o humano apenas fora desses limites.

N4 --- Metas contínuas. Otimização perpétua. O agente monitora fornecedores, compara preços ao longo do tempo, renegocia condições, busca o melhor resultado dentro de um objetivo contínuo --- não de uma transação única.

N5 --- Comércio multi-agente. Nascente, ainda teórico. Agentes pessoais negociam diretamente com redes de agentes especializados de fornecedores. Sem interface humana na transação.

O framing do McKinsey é “curva, não escada” --- organizações não devem subir sequencialmente, mas encontrar o nível de delegação ótimo para cada caso de uso. Concordamos inteiramente com essa premissa.

O Que o Framework Não Aborda

O relatório descreve o quê. Não aborda o como.

Como uma organização decide que determinado caso de uso pertence ao N3 e não ao N4? Como impõe esses limites em produção? Como audita o comportamento do agente? Como ajusta o nível quando as condições mudam?

Isso é governança. E está completamente ausente da análise.

Não é uma omissão menor. É a diferença entre um framework acadêmico e algo que funciona na prática.

Considere: o N3 pressupõe “parâmetros definidos” para o agente operar. Quem define esses parâmetros? Como são atualizados? O que acontece quando o agente encontra uma situação ambígua --- dentro dos parâmetros por uma leitura, fora por outra? Quem responde quando o agente compra algo que tecnicamente cabia nas regras mas claramente não era o que o consumidor queria?

Cada nível do framework carrega uma pergunta implícita de governança que o relatório não responde.

Os Dados Que Faltam

A McKinsey projeta de 3 a 5 trilhões de dólares em comércio agêntico global até 2030. É a estimativa mais agressiva do mercado --- de duas a cinco vezes maior que as projeções de Morgan Stanley e Bain Capital.

Não estou dizendo que está errada. Estou dizendo que há dados que complicam a narrativa e que o relatório não menciona.

Confiança do consumidor. Segundo pesquisa da YouGov de dezembro de 2025, apenas 14% dos consumidores confiam em IA para fazer compras em seu nome. Não importa o que agentes podem fazer se consumidores não querem que façam. A curva de delegação técnica precisa ser calibrada pela curva de confiança do consumidor --- e essa segunda curva está muito atrás da primeira.

Tráfego real. O dado frequentemente citado de 4.700% de aumento no tráfego de IA generativa em e-commerce (Adobe, julho de 2025) impressiona no percentual e engana na escala. Esse crescimento parte de uma base próxima a zero. Em termos absolutos, tráfego de IA generativa ainda representa menos de 1% do total. É um sinal de direção, não de magnitude.

Responsabilidade. O framework não menciona responsabilidade civil ou regulatória. Se um agente N3 executa uma compra fraudulenta dentro dos parâmetros definidos, quem responde? O consumidor? A plataforma? O fornecedor do agente? O Artigo 22 do GDPR já restringe decisões automatizadas que afetam indivíduos. Leis estaduais de IA nos Estados Unidos estão adicionando camadas. Ignorar esse contexto regulatório não o faz desaparecer.

Segurança. Agentes com autoridade de compra são alvos. Quanto mais delegação, maior a superfície de ataque. O relatório não aborda os riscos de segurança inerentes a cada nível --- e esses riscos crescem exponencialmente do N0 ao N5.

A Curva de Automação É Uma Curva de Governança

Quando o McKinsey diz “delegação ótima,” está descrevendo um problema de governança sem usar a palavra.

Cada nível do framework implica um conjunto diferente de controles:

N0-N1 exigem governança mínima. Regras fixas ou assistência sem execução. O risco é baixo, os controles são simples.

N2 introduz a necessidade de governança de dados. O agente acessa informações de produto, preço, disponibilidade. Quem controla o que ele vê? Quais fontes são confiáveis?

N3 é onde a governança se torna estruturante. Parâmetros de operação precisam ser definidos, monitorados, auditados. Exceções precisam de caminhos claros de escalação. Trilhas de decisão precisam ser rastreáveis.

N4 exige governança dinâmica. Metas contínuas significam que o agente otimiza ao longo do tempo --- mas otimiza para quem? Sob quais restrições? Com que frequência os objetivos são revisados? Quem valida que a otimização do agente está alinhada com o interesse real do consumidor?

N5 é governança como infraestrutura. Agentes negociando com agentes sem intermediação humana requer protocolos de identidade, verificação, auditoria e resolução de disputas que simplesmente não existem hoje.

A “curva de automação” é, na verdade, uma curva de governança. O nível certo de delegação para cada caso de uso é determinado não pelo que a tecnologia pode fazer, mas pelo que sua organização consegue governar.

O Ecossistema Está Se Formando

Três forças convergem para tornar o comércio agêntico viável:

Capacidade técnica. Modelos de linguagem atingiram utilidade prática em nível de decisão. Não são perfeitos --- mas são bons o suficiente para tarefas estruturadas com supervisão.

Protocolos abertos. O Model Context Protocol (MCP), com mais de 97 milhões de downloads mensais do SDK, e o padrão Agent-to-Agent (A2A) estão criando infraestrutura de interoperabilidade. A Agentic AI Interoperability Framework (AAIF) da Linux Foundation, lançada em dezembro de 2025, é um sinal institucional forte.

Infraestrutura de pagamento. O Trusted Agent Protocol da Visa e o Agent Pay da Mastercard entram em operação comercial no primeiro trimestre de 2026. Quando Visa e Mastercard investem em infraestrutura para agentes, a direção está clara.

Mas “viável” não significa “pronto.” A infraestrutura técnica está à frente da infraestrutura de governança, da confiança do consumidor e do arcabouço regulatório. Esse descompasso é exatamente onde os riscos se concentram.

O Que Isso Significa na Prática

Se você está avaliando comércio agêntico para sua organização, o framework do McKinsey é um ponto de partida útil. Mas não é suficiente.

Comece pela governança, não pela tecnologia. Antes de decidir qual nível de delegação adotar, determine qual nível de governança sua organização sustenta. Se você não consegue auditar decisões de agentes, monitorar comportamento em produção e definir caminhos claros de responsabilidade, o N3 é teto --- independentemente do que a tecnologia permita.

Calibre pela confiança. Seus consumidores estão prontos para delegação? Provavelmente não tanto quanto sua equipe de inovação imagina. Comece pelo N1-N2, construa confiança demonstrada, e suba gradualmente conforme a aceitação permitir.

Trate o framework como curva, não como destino. O McKinsey acerta nesse ponto. Não há obrigação de chegar ao N5. Para muitos casos de uso, o N3 é o nível ótimo por anos. Resistir à pressão de “avançar” é frequentemente a decisão mais inteligente.

Inclua o que o relatório omitiu. Responsabilidade civil. Restrições regulatórias. Riscos de segurança por nível. Confiança do consumidor como métrica. Se sua estratégia de comércio agêntico não aborda esses fatores, é incompleta.

A Convergência Que Importa

Quando a maior consultoria do mundo chega independentemente à mesma conclusão --- que o objetivo é delegação ótima, não máxima --- é um sinal de convergência importante.

Mas dizer “delegação ótima” sem um framework para determinar o que é ótimo e como impô-lo é como dizer “invista no ativo certo” sem critérios de seleção. É direcionalmente correto e operacionalmente inútil.

A curva de automação é uma curva de governança. O nível certo de delegação é o nível que sua organização consegue governar com responsabilidade, transparência e controle.

Essa é a tese. O McKinsey descreveu o mapa. Governança é a bússola.


O Victorino Group trabalha com organizações que estão avaliando estratégias de IA agêntica. Se você precisa de um framework de governança que acompanhe sua curva de automação, entre em contato: contato@victorino.com.br

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