O Problema do Controle de IA

A Pergunta de US$ 500 Bilhões: Por Que Governança É o Único Fosso de IA que Sobrevive

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Thiago Victorino
10 min de leitura
A Pergunta de US$ 500 Bilhões: Por Que Governança É o Único Fosso de IA que Sobrevive

No primeiro trimestre de 2025, os cinco maiores hyperscalers gastaram aproximadamente US$ 443 bilhões em capex. Cerca de 75% desse valor foi direcionado a infraestrutura de IA: data centers, GPUs, refrigeração, energia. A Sequoia Capital estimou que a indústria precisaria gerar US$ 600 bilhões em receita anual recorrente apenas para justificar um retorno de 10% sobre esse investimento.

A receita real do setor de IA? Uma fração disso. O ratio de gasto para receita está na ordem de 10 para 1.

Enquanto isso, do outro lado da equação, a S&P Global entrevistou 1.006 organizações e descobriu que 42% abandonaram pelo menos uma iniciativa de IA em 2025. Esse número era 17% no ciclo anterior. A IBM entrevistou 2.000 CEOs e encontrou algo ainda mais revelador: 64% adotaram IA antes de determinar se haveria benefício mensurável.

Dois números. Um conta a história do capital sem destino. O outro, a história da adoção sem critério.

A Economia Invertida

A OECD reportou que IA capturou 61% de todo o venture capital global em 2025: US$ 258,7 bilhões de um total de US$ 427,1 bilhões. Nunca na história do capital de risco uma única categoria absorveu mais da metade do investimento disponível.

Compare com bolhas anteriores. Na crise das pontocom, internet e telecomunicações juntas representavam cerca de 39% do VC. Em criptomoedas, o pico foi 27%. A concentração atual não tem precedente.

O problema não é que a tecnologia não funciona. Funciona. O problema é que o modelo econômico ao redor dela ainda não fechou. Tokens ficam mais baratos a cada trimestre. Modelos se comoditizam em meses. A vantagem competitiva de “ter o melhor modelo” dura uma janela cada vez menor.

Hamilton Helmer, em 7 Powers, catalogou sete fossos competitivos duráveis: economias de escala, efeito de rede, contra-posicionamento, custos de troca, monopólio de recurso, processo proprietário e poder de marca. A pergunta que importa: quantos desses fossos sobrevivem quando agentes de IA podem replicar software, migrar entre provedores e reconstruir integrações em horas?

Custos de troca colapsam quando um agente migra sua stack em uma tarde. Efeito de rede perde força quando dados são portáveis. Poder de marca dilui quando o comprador é uma máquina otimizando por custo, não um humano influenciado por reputação.

O fosso que sobrevive é o que Helmer chamaria de processo proprietário, mas em uma forma específica: a capacidade organizacional de governar o que a IA produz e consome.

De Shadow IT para Shadow Development

Em 2015, o problema de segurança mais discutido em conferências era shadow IT. Funcionários adotando Dropbox, Slack e Trello sem aprovação de TI. O risco era visível: dados corporativos em sistemas não gerenciados.

Uma década depois, o problema mutou. Não são mais aplicações prontas que funcionários adotam sem aprovação. São workflows inteiros que funcionários constroem sem supervisão. Segundo dados consolidados de múltiplas pesquisas de 2025, 60% dos funcionários usam ferramentas de IA não aprovadas pela organização. Apenas 37% das empresas possuem políticas formais de governança para uso de IA.

A diferença entre adotar um SaaS não aprovado e construir um pipeline de agentes não aprovado é qualitativa, não quantitativa. Um funcionário usando ChatGPT para rascunhar emails é shadow IT. O mesmo funcionário conectando um agente ao CRM, alimentando-o com dados de clientes e automatizando follow-ups é shadow development. O primeiro é um risco de compliance. O segundo é um risco operacional com superfície de ataque exponencialmente maior.

Como exploramos em O Mítico Mês do Agente, agentes geram dívida técnica na velocidade da máquina. Quando essa geração acontece fora de qualquer estrutura de governança, a dívida se acumula de forma invisível até que uma falha a torne óbvia.

A Bifurcação

Observo uma tese de bifurcação emergindo nos dados. De um lado, organizações que construíram artefatos de governança antes de escalar IA: políticas de uso aceitável, registros de decisão automatizada, frameworks de avaliação de risco por caso de uso. Essas organizações conseguem absorver a deflação de custos de tokens sem perder controle operacional.

Do outro lado, organizações que escalaram primeiro e planejaram governar depois. Os 42% da pesquisa S&P Global vêm desproporcionalmente desse segundo grupo. Não abandonaram IA porque a tecnologia falhou. Abandonaram porque não tinham a infraestrutura organizacional para absorver o que a tecnologia produzia.

A pesquisa da IBM reforça o padrão. Dos 64% que adotaram antes de medir, a maioria reportou dificuldade em demonstrar valor para o board. Não por falta de output, mas por falta de rastreabilidade entre output e resultado de negócio. Governança não é burocracia. É a camada que conecta capacidade técnica a resultado mensurável.

Isso tem paralelo direto com o que analisamos em O Teste de Estresse de US$ 3 Trilhões: capital sem estrutura de absorção gera instabilidade, seja no mercado financeiro ou dentro de uma organização.

O Paradoxo de Jevons e o Valor da Governança

William Stanley Jevons observou em 1865 que melhorias na eficiência do uso de carvão não reduziram o consumo total. Aumentaram. Motores mais eficientes tornaram o carvão viável para aplicações antes impraticáveis, e o consumo agregado explodiu.

Tokens de IA seguem o mesmo padrão. O custo por milhão de tokens caiu mais de 90% entre 2023 e 2025. O consumo total de tokens cresceu exponencialmente. Modelos mais baratos não significam menos uso. Significam mais agentes, mais automações, mais workflows, mais superfície de risco.

Aqui está a tensão que preciso ser honesto a respeito: se consumo cresce com eficiência, a carga sobre governança cresce proporcionalmente. Governança como fosso competitivo funciona precisamente porque é difícil. Se fosse fácil, todos teriam. Mas a deflação de tokens torna a necessidade de governança mais urgente a cada trimestre, e a capacidade de implementá-la não escala na mesma velocidade.

Isso não invalida a tese. Reforça-a. A escassez de capacidade de governança é exatamente o que cria o fosso. Organizações que investiram cedo acumulam vantagem composta. As que esperaram enfrentam uma curva de aprendizado cada vez mais íngreme, porque a superfície a ser governada cresce mais rápido do que a maturidade institucional para governá-la.

A Categoria SaaS que Sobrevive

Em fevereiro de 2026, o setor de software perdeu cerca de US$ 2 trilhões em capitalização de mercado. A tese de destruição por IA atingiu tudo: CRMs, plataformas de RH, ferramentas de colaboração, sistemas de ticketing. Se um agente pode fazer o trabalho, por que pagar licença?

Mas uma categoria cresceu: software de compliance e governança. Não é coincidência. Quando agentes se tornam commodity, a camada de controle se torna o diferencial. Ninguém quer auditar manualmente o que mil agentes produziram na semana passada.

O padrão é reconhecível para quem viveu ciclos anteriores de infraestrutura. Nos anos 2000, a explosão de servidores web criou a indústria de monitoramento. A migração para cloud criou a indústria de segurança cloud-native. Cada onda de capacidade gera uma onda correspondente de controle.

A onda agêntica vai gerar a indústria de governança agêntica. Não como previsão entusiasmada, mas como necessidade estrutural. Quando 60% dos funcionários constroem com ferramentas não aprovadas e apenas 37% das organizações têm políticas, o déficit é operacional, não teórico.

Ressalvas Necessárias

Preciso ser claro sobre o que essa tese é e o que não é.

“Governança como fosso” é uma hipótese estratégica baseada em convergência de dados. Não é um fato empiricamente comprovado. Nenhum estudo longitudinal acompanhou organizações com e sem governança de IA por tempo suficiente para isolar a variável. Estamos trabalhando com sinais, não com prova.

Ciclos históricos de infraestrutura também tiveram períodos longos entre investimento e retorno. A fibra óptica dos anos 1990 levou uma década para justificar o capex. É possível que o ratio 10:1 de gasto para receita em IA se resolva com escala, como aconteceu com cloud computing.

O Paradoxo de Jevons cria uma tensão real. Se governança se torna o fosso, e o fosso atrai investimento, e o investimento gera ferramentas melhores de governança, essas ferramentas eventualmente comoditizam a própria governança? Talvez. Mas isso levaria anos, e a vantagem dos early movers é real enquanto a comoditização não chega.

O que os dados sustentam com segurança: organizações sem governança abandonam iniciativas de IA em taxas significativamente maiores. Capital sem estrutura de absorção dissipa valor. E a deflação de tokens intensifica ambos os problemas.

O Fosso que Não Se Compra

A maioria dos fossos competitivos pode ser comprada. Você compra escala com capital. Compra marca com marketing. Compra talento com compensação.

Governança organizacional para IA não se compra. Constrói-se. É o acúmulo de decisões sobre quais casos de uso aprovar e quais vetar. É o registro de por que um modelo foi escolhido e outro descartado. É a política que define quem pode conectar um agente a dados de clientes e sob quais condições. É o processo que conecta output de IA a métricas de negócio rastreáveis.

Nenhum software instala isso. Nenhum consultor entrega isso pronto. É capacidade institucional que se desenvolve com prática, iteração e, inevitavelmente, com erros que ensinam o que os frameworks teóricos não conseguem ensinar.

Enquanto tokens ficam mais baratos e modelos se comoditizam, essa capacidade se valoriza. Não porque é sofisticada, mas porque é escassa. E escassez, no final, é o que define um fosso.


Fontes

  • S&P Global. “AI in the Enterprise Survey.” 2025. (1.006 respondentes, 42% de abandono)
  • IBM Institute for Business Value. “CEO Decision-Making in the Age of AI.” 2025. (2.000 CEOs)
  • Sequoia Capital. “AI’s $600B Question.” 2025.
  • OECD. “Venture Capital Trends in Artificial Intelligence.” 2025. (US$ 258,7B em IA de US$ 427,1B total)
  • Hamilton Helmer. 7 Powers: The Foundations of Business Strategy. 2016.
  • William Stanley Jevons. The Coal Question. 1865.

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