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Liderança na Era da IA: Por Que Habilidades Humanas Importam Mais do Que Nunca
A IA pode escrever, programar, analisar e completar tarefas em velocidade impressionante. Pode redigir e-mails, criar agendas e preparar reuniões importantes. Mas ainda não consegue fazer o trabalho difícil da liderança.
Essa é a tese central de uma pesquisa publicada pela McKinsey em janeiro de 2026, assinada por Bob Sternfels (Global Managing Partner), Borge Brende (Presidente do Fórum Econômico Mundial) e Daniel Pacthod (Senior Partner). É uma tese que merece atenção.
O Paradoxo da Liderança na Era da IA
Vivemos um paradoxo interessante. Quanto mais a IA avança em capacidades técnicas, mais importantes se tornam as habilidades exclusivamente humanas. A liderança permanece profundamente humana — e mais crítica do que nunca, dado o escopo de mudança e incerteza que as organizações enfrentam hoje.
O que a IA ainda não consegue fazer:
- Definir aspirações: Estabelecer metas ambiciosas que mobilizem toda a organização
- Tomar decisões difíceis: Fazer escolhas quando valores conflitam e o tempo é curto
- Construir confiança: Gerar lealdade e engajamento entre stakeholders diversos
- Gerar ideias genuinamente novas: Criar inovações que quebram padrões existentes
Esses quatro elementos não são apenas difíceis de automatizar — eles definem o que significa liderar.
A Mudança Central: De Comando para Contexto
Pesquisas do McKinsey Global Institute sugerem que pessoas, agentes e robôs trabalharão cada vez mais lado a lado. Nesse ambiente, abordagens tradicionais de comando e controle tendem a falhar.
A mudança fundamental é esta:
Modelo Tradicional:
- Líder como “a pessoa mais inteligente da sala”
- Decisões top-down e centralizadas
- Controle direto sobre execução
- Hierarquia rígida de informação
Modelo na Era da IA:
- Líder como criador de contexto e guardrails
- Direitos de decisão distribuídos
- Definição clara de padrões de qualidade
- Ambiente de confiança e colaboração
Isso não significa abandonar a liderança diretiva. Pesquisas mostram que organizações com liderança forte tomam decisões 60% mais rápido em momentos de crise. O segredo é saber quando aplicar cada estilo.
Três Domínios Exclusivamente Humanos
A pesquisa identifica três áreas onde apenas humanos podem liderar efetivamente.
1. Definir Aspirações e Mobilizar Pessoas
Aspirações são exclusivamente humanas. Um robô não pode definir uma meta ambiciosa para toda a organização.
Líderes conseguem “ler a sala”, antecipar e interpretar reações emocionais à mudança — algo crítico para mobilizar pessoas e envolvê-las nos planos estratégicos. Apenas um líder empático consegue identificar preferências e alocar as pessoas certas nos projetos certos.
Ações práticas:
- Articular uma visão que inspire e dê significado ao trabalho
- Traduzir estratégia em metas que ressoem com diferentes equipes
- Usar IA para rascunhar mensagens, mas personalizar a comunicação
- Criar rituais de alinhamento que vão além de slides e dashboards
- Celebrar marcos e reconhecer contribuições individualmente
Líderes podem usar agentes e máquinas para ajudar a rascunhar mensagens, mas não podem delegar a definição de aspirações.
2. Demonstrar Julgamento e Alinhar Escolhas a Valores
A capacidade de demonstrar bom julgamento é um traço distintamente humano.
A IA pode resumir regras ou delinear riscos, mas seu papel é consultivo, não autoritativo. Modelos de IA não carregam responsabilidade real por seus outputs. Por outro lado, líderes no mundo físico devem ser responsabilizados perante funcionários, conselhos, investidores e parceiros.
Quando o julgamento humano é insubstituível:
- Valores em conflito: Quando princípios organizacionais colidem e não há resposta “certa” objetiva
- Tempo limitado: Decisões que precisam ser tomadas sem dados completos ou consenso
- Precedentes importantes: Escolhas que definirão como a organização age em casos futuros
- Impacto em pessoas: Decisões que afetam carreiras, bem-estar ou cultura organizacional
A pesquisa da McKinsey mostra que a decisividade, responsabilização e demonstração de bom julgamento dos líderes não apenas desbloqueiam confiança e lealdade, mas são preditores-chave da capacidade de criar valor de longo prazo.
3. Projetar para Resultados Não-Lineares
Em um mundo onde forças globais, sociais e tecnológicas mudam dinamicamente, a capacidade de fomentar ideias novas e criativas é um músculo crítico de liderança.
Modelos de IA são motores de inferência, otimizados para gerar a próxima continuação mais provável de padrões que já viram. Isso significa que eles são excelentes para melhorias incrementais — 20% melhor — mas não para transformação real — 10x melhor.
Líderes devem buscar resultados 10 vezes melhores, não apenas 20% melhores.
O trabalho difícil do líder:
- Definir um brief audacioso que desafie o status quo
- Estabelecer guardrails claros sem sufocar a criatividade
- Convidar o dissenso construtivo e ouvir vozes divergentes
- Manter a linha criativa quando iterações iniciais são confusas
- Reconhecer quando outputs de IA levarão a avanços reais vs. incrementais
A antítese de “jogar para não perder”: líderes devem continuamente revisar, revisar e criar novas arquiteturas, narrativas e condições para suas organizações.
Quatro Imperativos para Desenvolver Líderes
Como as organizações podem desenvolver líderes preparados para a era da IA?
Imperativo 1: Saiba Quais Atributos Você Está Procurando
Torne explícitos os atributos de liderança que sua empresa precisa agora e os comportamentos que você vai recompensar.
Se choques econômicos e competitivos são particularmente frequentes ou agudos em seu setor, você pode querer focar em resiliência e otimismo como características-chave.
O sistema de avaliação deve mudar: mais audição do que entrevista — cenários ao vivo com informação incompleta, perguntas estruturadas que testam julgamento baseado em valores, e movimentos rápidos para funções desafiadoras que revelam trajetória.
Atributos críticos por contexto:
| Contexto | Atributos Prioritários |
|---|---|
| Alta Volatilidade | Resiliência, adaptabilidade, tomada de decisão rápida |
| Crescimento Rápido | Escalabilidade de pensamento, delegação efetiva |
| Transformação Digital | Fluência técnica, gestão de mudança, colaboração humano-IA |
| Cultura em Crise | Integridade, comunicação transparente, empatia |
Imperativo 2: Crie uma Mudança Radical na Cultura de Aprendizado
Estabeleça uma cultura onde premortems, revisões pós-ação e outros mecanismos de feedback sejam a norma, não a exceção.
Essa abordagem há muito é padrão na indústria de software e na comunidade médica: conquistas são celebradas, falhas são revisadas meticulosamente, e lições são codificadas.
Brad Smith, ex-CEO da Intuit, descreve assim: “Você pula níveis e vai direto à linha de frente da área que está tentando aprender. Corta todos os outros e elimina o filtro.”
Práticas de líderes eficazes:
- Agendar reuniões regulares com funcionários vários níveis abaixo
- Perguntar: “O que está melhorando? O que está piorando? O que você tem medo de me contar?”
- Criar fóruns onde líderes seniores engajam diretamente com talentos de alto potencial
- Compartilhar desafios de gestão e fazer crowdsourcing de soluções
- Transformar falhas em estudos de caso documentados
O modelo: aprenda um pouco, teste um pouco, aprenda muito. Ciclos rápidos de experimentação com loops de feedback estruturados.
Imperativo 3: Invista em Confiança e Liderança Servidora
Organizações devem cultivar ativamente qualidades centrais de liderança como sabedoria, empatia e confiança — dando a esses atributos a mesma atenção que dão a novos sistemas de TI ou modelos operacionais.
Isso significa proporcionar tempo para que líderes façam o trabalho interior necessário para liderar outros efetivamente:
- Refletir sobre propósito e significado
- Compartilhar insights com outros líderes C-level
- Considerar o que sucesso significa para si e para a organização
Satya Nadella, CEO da Microsoft, cita uma lição de seu pai: “Se o próximo CEO da Microsoft puder ser mais bem-sucedido do que eu, então talvez eu tenha feito meu trabalho certo.”
Sinais de liderança servidora:
- Celebrar ou promover publicamente líderes que demonstram compromisso com a missão mais ampla
- Priorizar desenvolvimento de sucessores sobre realizações pessoais
- Criar transições significativas e mentorias ativas
- Reconhecer que a jornada de liderança é tão importante quanto os resultados
Imperativo 4: Proteja Seu Tempo e Energia para Performance Sustentada
Os líderes de melhor desempenho criam condições que permitem alcançar seu melhor pessoal em momentos de pico.
Eles reconhecem que, ao longo de seus mandatos de liderança, alguns momentos são simplesmente mais importantes que outros — então otimizam para esses pontos críticos de inflexão.
Um CEO global de tecnologia mantém 20% de seu calendário livre para responder adequadamente a situações à medida que surgem.
Práticas de proteção de energia:
- Proteger ferozmente a agenda para focar em tarefas que só você pode fazer
- Reservar tempo explicitamente para recuperação e regeneração
- Identificar seus pontos de inflexão críticos e preparar-se para eles
- Delegar decisões que outros podem tomar tão bem quanto você
- Criar sistemas que filtrem informação sem perder sinais importantes
Assim como atletas de alto rendimento, líderes devem gerenciar energia, não apenas tempo. Períodos de intensidade máxima requerem períodos de recuperação adequada.
Identificando Talentos de Alto Potencial
Aspiração, julgamento e criatividade são traços de liderança “somente humanos” — características que podem fornecer uma vantagem competitiva insubstituível, especialmente quando amplificadas pela IA.
Organizações devem identificar e desenvolver ativamente indivíduos que demonstrem características intrínsecas como:
- Resiliência diante de adversidades
- Vontade de aprender com erros
- Capacidade de trabalhar em equipes que incluirão humanos e agentes de IA
Pesquisa da McKinsey mostra que essas características são melhores preditores de sucesso de longo prazo do que credenciais formais.
Rompendo o “Teto de Papel”
Muitas organizações bloqueiam talentos pela falta de credenciais formais. Isso requer:
- Olhar além de diplomas e certificações ao avaliar candidatos
- Enfatizar contratação baseada em habilidades
- Valorizar experiência real e relevante
- Priorizar características intrínsecas que atravessam funções e tecnologias
Pesquisa de Harvard e Burning Glass mostra que 85% das empresas dizem fazer contratação baseada em habilidades, mas apenas 0,14% das contratações são realmente afetadas. A execução importa mais que a intenção.
Uma Perspectiva Equilibrada
Toda análise merece escrutínio crítico. Considere estas perspectivas adicionais:
O que a pesquisa não aborda:
- Pressões econômicas podem forçar escolhas de IA sobre liderança humana
- A fronteira entre capacidades humanas e de IA continua se movendo
- Diferentes setores requerem diferentes combinações de estilos
- Implementação é mais difícil do que as recomendações sugerem
Como Andrew J. Scott, economista, observa: “À medida que máquinas ficam melhores em ser máquinas, humanos precisam ficar melhores em ser humanos.”
Perguntas para Sua Organização
Antes de encerrar, algumas perguntas para reflexão:
- Quais decisões em nossa organização requerem julgamento humano insubstituível?
- Onde estamos usando IA para pensar conosco vs. pensar por nós?
- Como estamos desenvolvendo a próxima geração de líderes para colaborar com IA?
- Nossos sistemas de avaliação identificam as características certas?
- Estamos investindo no “trabalho interior” dos nossos líderes?
Conclusão
A IA pode transformar como trabalhamos, mas apenas líderes humanos podem determinar por que trabalhamos e o que estamos tentando alcançar.
Os três domínios — aspirações, julgamento e criatividade não-linear — não são apenas áreas onde humanos ainda são melhores. São áreas onde a natureza do trabalho exige qualidades que máquinas, por definição, não podem ter: responsabilidade moral, empatia genuína e a capacidade de inspirar outros seres humanos.
Os quatro imperativos — definir atributos, transformar aprendizado, investir em confiança e proteger energia — não são novos. São princípios de liderança que resistiram ao tempo. O que muda é a urgência de aplicá-los.
Na era da IA, a liderança não se torna menos importante. Ela se torna o diferencial.
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