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Seu Time de Produto Foi Projetado Para um Mundo Que Não Existe Mais
Existe um número que deveria tirar o sono de qualquer líder de produto: 89% das organizações ainda operam modelos da era industrial. Não é um dado de pesquisa acadêmica obscura — é McKinsey, outubro de 2025, analisando estruturas organizacionais globais.
O número importa porque o modelo industrial pressupõe uma coisa: trabalho é feito por pessoas, organizadas em sequência, com handoffs entre etapas. PM define. Design projeta. Engenharia constrói. QA valida. Cada etapa entrega para a próxima.
Esse modelo funcionou por décadas. E agora está quebrando.
O Chão Se Move
A McKinsey não usou linguagem sutil. Chamou de “a maior mudança de paradigma organizacional desde a revolução industrial.” Se a frase soa grandiosa, os dados a sustentam: modelos de trabalho baseados em handoff sequencial foram desenhados para um mundo onde o gargalo era capacidade de execução humana. Quando a execução passa a ser feita — ou amplificada — por agentes de IA, o gargalo muda. E o modelo organizacional precisa mudar junto.
O problema é que 89% das empresas ainda não mudaram.
Não por falta de informação. As ferramentas estão disponíveis. Os modelos estão cada vez mais capazes. O que falta é uma resposta honesta à pergunta: se IA pode executar uma parte significativa do trabalho, o que sobra para o time de produto fazer?
Times de Produto Sentem Primeiro
Considere o workflow padrão de um time de produto hoje:
- PM escreve requisitos
- Design cria protótipos
- Engenharia implementa
- QA testa
- Volta ao passo 1
Esse workflow assume que cada etapa requer um especialista humano dedicado. Mas quando um agente de IA pode gerar código funcional a partir de uma especificação, prototipar interfaces a partir de descrições, e executar suítes de teste — o que acontece com o handoff?
Ele não desaparece. Ele se transforma.
O PM não deixa de existir. Mas o trabalho muda de “escrever requisitos detalhados para engenheiros” para “definir intenção clara o suficiente para agentes executarem.” É uma competência diferente. Escrever um PRD para um engenheiro sênior é diferente de escrever uma especificação que um agente autônomo vai interpretar e executar sem pedir esclarecimento.
O engenheiro não deixa de existir. Mas o trabalho muda de “escrever código” para “supervisionar a arquitetura do que agentes produzem.” Você não precisa de menos engenheiros porque tem IA. Você precisa de engenheiros com uma habilidade diferente: a capacidade de revisar, corrigir e manter a coerência de código que eles não escreveram.
O designer não deixa de existir. Mas o trabalho muda de “criar cada tela” para “definir sistemas de design que agentes podem aplicar consistentemente.”
Cada papel se desloca — de execução para orquestração.
A Divergência em K
O mercado já está se dividindo. O Microsoft Work Trend Index de 2025 mostrou que 66% dos líderes de empresas já não contratam candidatos sem habilidades demonstráveis em IA. Não é uma preferência — é um filtro.
A implicação é uma divergência em formato de K: profissionais e empresas que se adaptam aceleram. Os que não se adaptam ficam cada vez mais para trás. Não há platô. A distância entre os dois grupos aumenta a cada trimestre.
Para times de produto no Brasil, a dinâmica é particularmente aguda. O mercado brasileiro de tecnologia cresceu nos últimos anos com uma forte cultura de execução — times grandes, sprints bem definidos, entregas incrementais. Essa cultura foi uma vantagem competitiva. Agora é uma armadilha potencial, porque otimiza exatamente o modelo que está mudando.
Uma empresa brasileira de produto com 40 engenheiros e processos ágeis bem implementados pode olhar para IA e concluir: “Estamos bem. Nosso processo funciona.” E está certa — o processo funciona. Para o mundo que existia até ontem.
Velocidade Sem Governança É Caos
Aqui é onde a narrativa de transformação colide com a realidade.
O Gartner publicou em junho de 2025 uma previsão que deveria fazer qualquer líder de produto pausar: mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até 2027. Não 40% dos projetos mal planejados. Quarenta por cento de todos os projetos.
A razão é previsível: empresas adotam IA agêntica sem a infraestrutura para governá-la. Escalam antes de entender. Automatizam antes de definir limites. E quando algo dá errado — e dá — não têm os mecanismos para diagnosticar, corrigir e prevenir.
O dado do Gartner ganha peso quando combinado com outro: dos milhares de vendors que se autoproclamam fornecedores de “IA agêntica”, apenas cerca de 130 são reais. O restante é marketing sobre capacidades que não existem. Times de produto que baseiam suas estratégias em promessas de vendors estão construindo sobre areia.
E tem o dado mais contraintuitivo de todos. A METR — uma organização de pesquisa independente — publicou em 2025 um trial randomizado controlado com desenvolvedores experientes usando ferramentas de IA. O resultado: desenvolvedores foram 19% mais lentos com IA do que sem.
Leia de novo. Mais lentos.
O estudo não prova que IA não funciona para desenvolvimento. Prova algo mais específico e mais importante: ferramentas de IA sem integração adequada ao workflow, sem governança de uso e sem treinamento do time produzem resultado negativo. A ferramenta em si não é o problema. A ausência de um modelo operacional para usá-la é.
O Novo Modelo Operacional
Se o modelo de handoff sequencial está quebrando, o que o substitui?
A resposta curta: orquestração governada.
Em vez de uma cadeia linear onde cada pessoa entrega para a próxima, o novo modelo é um hub onde o time define intenção, configura agentes, supervisiona execução e valida resultados. O trabalho não flui em linha — ele converge para um centro de decisão.
Na prática:
PM como Arquiteto de Intenção. O PM não escreve features — define outcomes. “O usuário precisa completar o cadastro em menos de 2 minutos” é uma intenção. “Adicione um campo de telefone com máscara e validação” é uma instrução de implementação. Agentes trabalham melhor com intenção clara. Humanos decidem o “porquê” e o “para quê.” Agentes resolvem o “como.”
Engenheiro como Supervisor Arquitetural. O engenheiro não escreve cada linha de código — define as restrições dentro das quais agentes operam. Padrões de arquitetura. Suítes de teste que funcionam como especificação. Revisão de código produzido por agentes. O Nicholas Carlini, pesquisador da Anthropic, demonstrou isso ao coordenar 16 agentes que construíram um compilador C de 100 mil linhas. O trabalho dele não foi escrever código. Foi projetar o ambiente — testes, limites, mecanismos de feedback — que fez os agentes produzirem código coerente.
Designer como Arquiteto de Sistemas. O designer não cria cada interface — define o sistema de design, os princípios de interação, os padrões que agentes aplicam. A saída muda de “50 telas no Figma” para “um sistema que gera telas consistentes.”
QA como Governança Contínua. QA não testa no final — define os critérios que validam cada saída de agente em tempo real. Automação de testes deixa de ser uma prática de engenharia e se torna a infraestrutura central do modelo operacional.
Governança É o Sistema Operacional
Existe uma tentação de tratar governança como burocracia — o freio que desacelera a adoção. É o oposto.
Governança é o que torna a adoção possível em escala.
Sem governança, você tem agentes produzindo código que ninguém revisou, tomando decisões que ninguém autorizou, e criando dependências que ninguém mapeou. Isso não é velocidade. É dívida técnica acumulada em velocidade de máquina.
Cingapura entendeu isso antes da maioria. Em janeiro de 2026, o governo de Cingapura lançou o primeiro framework governamental de governança para IA agêntica. Não é um documento teórico — é um framework operacional com diretrizes específicas para como organizações devem estruturar controle sobre agentes autônomos.
O framework de Cingapura reconhece o que muitas empresas ainda resistem em aceitar: agentes autônomos precisam de limites definidos, trilhas de auditoria e pontos de decisão humana. Não porque a tecnologia é ruim. Porque a tecnologia é poderosa, e poder sem controle é risco.
Para times de produto, isso se traduz em perguntas concretas:
- Quem autoriza quando um agente pode fazer deploy em produção?
- Como você rastreia decisões tomadas por agentes em um sprint?
- Qual é o processo quando a saída de um agente contradiz uma decisão de produto?
- Como você audita a qualidade do que agentes produziram três meses depois?
Se o time não tem respostas para essas perguntas, não está pronto para escalar IA. Tem a ferramenta, mas não tem o sistema operacional.
O Que Fazer Agora
Transformações estruturais não acontecem em um sprint. Mas a direção precisa ser definida agora. Quatro movimentos concretos:
Primeiro: audite seu modelo de handoff. Mapeie cada etapa do seu workflow atual de produto. Identifique quais etapas envolvem execução que agentes podem amplificar. Não automatize — ainda. Apenas mapeie.
Segundo: redefina papéis antes de adotar ferramentas. A ferramenta vem depois. Antes, responda: o que cada pessoa do time faz quando agentes assumem a execução? Se a resposta for “a mesma coisa de antes, mas com IA,” você não entendeu a mudança.
Terceiro: construa a infraestrutura de governança. Trilhas de auditoria. Critérios de validação. Pontos de decisão humana. Protocolos de reversão. Isso não é overhead — é o que permite que agentes operem sem criar caos.
Quarto: comece pequeno, com governança desde o início. Escolha um workflow de baixo risco. Implemente com agentes. Mas implemente com todas as camadas de governança desde o primeiro dia. É mais lento no início. É o que permite escalar depois.
A Questão Real
A mudança em times de produto não é sobre IA ser boa ou ruim. Não é sobre adotar ou resistir. É sobre reconhecer que o modelo organizacional que funcionou nas últimas duas décadas foi projetado para um conjunto de premissas que não são mais verdadeiras.
As empresas que vão se destacar não serão as com melhor IA — a IA está se tornando commodity. Serão as que construíram os melhores frameworks de governança para orquestrar IA com velocidade e controle.
Seu time de produto foi projetado para um mundo que não existe mais. A pergunta não é se você vai redesenhá-lo. É se vai redesenhá-lo com intenção — ou ser forçado a fazê-lo pelo mercado.
Fontes
- McKinsey Global Institute. “Superagency in the workplace: Empowering people to unlock AI’s full potential.” Outubro 2025.
- Microsoft. “Work Trend Index 2025.” 2025.
- Gartner. “Predicts 2025: AI Agents — Promise and Peril.” Junho 2025.
- METR. “Measuring the Impact of Early-2025 AI on Experienced Open-Source Developer Productivity.” 2025.
- Infocomm Media Development Authority, Singapore. “Agentic AI Governance Framework.” Janeiro 2026.
- Nicholas Carlini. “Building a C compiler with Claude.” Anthropic Research Blog, fevereiro 2026.
A Victorino Group ajuda organizações a redesenhar times de produto para a era de agentes autônomos — com governança desde o primeiro dia. Se você está avaliando como reorganizar seu time para operar com IA, entre em contato.
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