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A Next Insurance Manteve Sprints e Quadro. Mudou Quem Escreve Cada Artefato.
Uma seguradora de cerca de duzentas pessoas passou três ou quatro meses colocando um ciclo de desenvolvimento agêntico em produção. Segundo o relato de Yuval Yeret de uma conversa com Shay Mandel, que lidera produto e habilitação de IA na Next Insurance, a empresa manteve o planejamento trimestral, manteve os sprints e manteve o quadro. O que mudou foi quem escreve os artefatos. PRDs, designs, código, revisões: agentes produzem tudo isso, guiados por skills que a empresa mantém, e uma lista curta de decisões continua com pessoas.
A implantação roda em poucos squads até agora. É um caso único, relatado em segunda mão, e eu o trato assim. Ele merece oito minutos porque é a decisão de sequenciamento mais clara que já vi escrita: mude a autoria primeiro, segure o processo parado e deixe o processo avisar quando precisar mudar.
Duas variáveis, um experimento
Tudo numa implantação agêntica convida a um redesenho. Sprints parecem lentos quando um agente rascunha um PRD mais rápido do que o sprint consegue absorver. Dailies parecem inúteis quando um pipeline atualiza o quadro. A lista de cerimônias pede para ser reescrita.
A Next Insurance deixou a lista em paz. Mesma cadência, mesmo quadro, mesmo ritmo de planejamento. Minha leitura do porquê: higiene experimental. Se você muda quem produz os artefatos e como o time se coordena no mesmo trimestre, uma queda na entrega tem duas causas candidatas e você é incapaz de separá-las. Segure o processo e a única variável em movimento é a autoria. Quando algo quebra, você sabe onde olhar.
O processo vai mudar em algum momento, e o gatilho é observável: o instante em que o quadro para de dizer onde o trabalho está. Em a fronteira de escalonamento é o artefato, a passagem entre agente e humano era um documento escrito. Aqui a passagem é um estado no Kanban, e esse estado alimenta as mesmas métricas de fluxo que o time já lê. Quando uma coluna deixa de descrever o que os agentes estão fazendo, essa coluna é a primeira coisa a redesenhar. Até lá o quadro cumpre sua função, que é manter o fluxo visível enquanto a autoria muda por baixo.
As cinco decisões que ficam com humanos
A coisa mais útil no texto de Yeret é uma lista. Cinco decisões continuam com pessoas na Next Insurance:
- Prioridades e seleção de funcionalidades.
- Aprovação do PRD.
- Revisão do design técnico antes de qualquer código ser escrito.
- Um olhar humano no pull request depois que a revisão do agente disse OK.
- A chave manual sobre os resultados de testes A/B.
Agentes rascunham todo o resto. Observe onde as cinco estão. Cada uma é um portão numa transição, e cada uma é o ponto em que uma resposta errada custa caro para reverter. Escolher a funcionalidade errada se mede em trimestres. Aprovar um PRD errado se mede em sprints. Um design errado custa o código escrito em cima dele. Um merge errado custa um rollback. Uma decisão errada de A/B custa um resultado visível ao cliente. O humano em cada item aprova ou aciona a chave; o rascunho saiu da lista por completo.
Já defendemos que especificações são artefatos de governança. Este caso é a versão disso numa empresa com lista publicada. A lista cabe num slide e é específica o bastante para auditar. Pergunte a um líder de engenharia quais decisões no pipeline agêntico dele ainda exigem uma pessoa e, nas conversas que tenho, a resposta habitual é uma sensação. A Next Insurance entrega cinco linhas.
Sessenta por cento é o plano
A gestão de expectativas de Mandel é incomum pela precisão: “a versão inicial provavelmente vai ter sessenta ou setenta por cento de acerto. E provavelmente chegaremos a noventa ou noventa e cinco por cento. E os cinco por cento extras são o motivo de precisarmos de um humano no circuito.”
Três coisas decorrem disso. A primeira versão está planejada para errar cerca de um terço das vezes. Os últimos cinco por cento são a justificativa de design para os portões humanos. E a lista de cinco decisões foi dimensionada para esses cinco por cento: uma empresa que espera agentes certos em dezenove de vinte respostas coloca pessoas onde a vigésima resposta doeria mais.
Revisão por exceção era uma proposta quando escrevemos: uma máquina lê tudo, uma pessoa lê o que a máquina sinaliza. O relato de Yeret nomeia uma skill de revisão de PRD pela engenharia. Coloque essa skill ao lado da segunda decisão humana, a aprovação do PRD, e o formato é o que descrevemos, rodando em produção numa seguradora. Um agente produz a revisão. Uma pessoa é dona da aprovação.
Um usuário por skill é um modo de falha
O relato nomeia um antipadrão visto em outras empresas: “cada skill é usada por talvez um ou dois usuários.” A resposta que dá: “todo mundo deveria melhorar o cérebro que temos na empresa.”
Se agentes escrevem os artefatos, as skills que os guiam são o processo da empresa em forma executável. Uma skill usada por uma pessoa é um processo privado. Vinte dessas e você tem vinte jeitos de escrever um PRD, cada um derivando sozinho. Proliferação de skills é proliferação de processo com controle de versão acoplado.
O remédio que o relato descreve é organizacional: skills são ativos compartilhados, e todo mundo as melhora. A forma concreta que eu daria a isso: um repositório, muitos contribuidores, revisão a cada mudança. Uma empresa que deixa cada squad guardar os próprios prompts fez a troca de autoria e jogou fora a governança que essa troca deveria comprar.
Produto e engenharia estão atrasados
Um detalhe de sequenciamento contraria a história habitual. Na Next Insurance, sinistros, suporte e a área voltada ao cliente adotaram IA há cerca de um ano. Produto e engenharia estão, nas palavras do relato, “na verdade atrasados”.
Times de engenharia costumam assumir que lideram porque construíram as ferramentas. Minha leitura deste caso: as funções que se moveram primeiro tinham artefatos com donos claros e limiares de acerto claros. Engenharia carrega uma cadeia mais densa de passagens (PRD, design, código, revisão, release), e levou mais tempo para decidir quais decisões humanas manter. Escrevemos sobre o que código escrito por agentes faz com a gestão de produto. A lista da Next Insurance é uma resposta: uma pessoa fica com as prioridades e a aprovação do PRD, e abre mão do rascunho.
Saber que precisa da ferramenta é a parte difícil
Benedict Evans, escrevendo no mesmo mês, enquadra o problema de fora da empresa. “A parte difícil é saber que você precisa de uma ferramenta para isso em primeiro lugar, e depois saber o que a ferramenta deveria fazer.” Uma ferramenta que toca “50 ou 500 pessoas em cinco departamentos diferentes, três sistemas de registro diferentes e quatro regimes regulatórios diferentes” “tem que ser uma compra, e uma decisão, e um processo de venda de 18 meses”.
Evans está explicando por que a transformação corporativa é lenta. A lista da Next Insurance responde à segunda pergunta dele, o que a ferramenta deveria fazer. Quando a empresa sabe quais decisões ficam com humanos, o ciclo agêntico ganha uma especificação: todo o resto. Antes dessa lista existir, “adotar IA na engenharia” é um desejo com orçamento.
Evans também diz que cerca de metade dos pilotos falha, e acrescenta que isso é normal e é o propósito de um piloto. Esse número é uma estimativa dele, sem fonte, e eu o cito como opinião. Ele combina com o modelo de Mandel. Um piloto que espera sessenta por cento de acerto e planeja os portões humanos em torno da diferença foi construído para sobreviver errando com frequência. Um piloto que espera noventa e cinco por cento no primeiro dia foi construído para ser cancelado.
Faça isso agora
Escreva sua lista antes de mudar qualquer outra coisa.
- Levante o inventário de artefatos de um squad: PRDs, designs, pull requests, planos de teste, notas de release, atualizações do quadro. Marque quem escreve cada um hoje.
- Para cada transição entre artefatos, decida se uma pessoa aprova, revisa ou está ausente. A Next Insurance tem cinco itens. A sua pode ter quatro ou sete. A contagem importa menos do que o fato de estar escrita e ser auditável.
- Segure as cerimônias paradas durante o período. Mesma duração de sprint, mesmo quadro, mesmo planejamento. Observe o quadro. No dia em que ele parar de dizer onde o trabalho está, você tem sua primeira mudança de processo, e vai saber por que a está fazendo.
- Coloque as skills num lugar só, com um dono por skill e um registro de mudanças. Uma skill com um usuário entra numa lista para adoção ou remoção.
- Escreva a expectativa de acerto. Sessenta a setenta agora, noventa a noventa e cinco depois. O resíduo é a razão de a lista do passo 2 existir.
Autoria primeiro, processo depois, e uma lista escrita do que fica com humanos entre os dois.
Fontes
- Scrum.org (autor Yuval Yeret, caso relatado por Shay Mandel, Next Insurance). “Don’t Redesign Your Process Yet. Change Who Writes the Artifacts.” Setembro de 2026.
- Benedict Evans. “AI, Tools, and Transformation.” Setembro de 2026.
A Victorino ajuda organizações de engenharia a decidir quais decisões ficam com humanos antes de os agentes assumirem os artefatos: contato@victorino.com.br | www.victorino.com.br
Todos os artigos do The Thinking Wire são escritos com o auxílio do modelo LLM Opus da Anthropic. Cada publicação passa por pesquisa multi-agente para verificar fatos e identificar contradições, seguida de revisão e aprovação humana antes da publicação. Se você encontrar alguma informação imprecisa ou deseja entrar em contato com o editorial, escreva para editorial@victorino.com.br . Sobre o The Thinking Wire →
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