O CMO É o Novo CTO

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Thiago Victorino
7 min de leitura
O CMO É o Novo CTO
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Em um ano, o percentual de CEOs que classificam o marketing como centro de custo subiu de 35% para 60%. Vinte e cinco pontos de oscilação em um único ciclo de pesquisa. O estudo Boathouse 2026 (N=150 CEOs nos EUA, em 16 setores) é o dado, mas o dado não é a notícia. A notícia é o que essa oscilação implica sobre a cadeira em si.

A descrição do cargo de CMO foi reescrita. O organograma ainda não foi atualizado.

CEOs agora cobram do marketing prestação de contas no padrão da engenharia — impacto em receita, rastreabilidade financeira, ROI sobre o gasto em IA — e cobram isso 4× mais forte do CMO do que de qualquer outro executivo do C-level, segundo o mesmo estudo. Enquanto isso, times de marketing seguem operando sem a infraestrutura no padrão da engenharia que tornaria essa prestação de contas possível. Sem trilha de auditoria do que a ferramenta de IA fez. Sem portões de qualidade no que os agentes do lado da marca publicaram. Sem observabilidade sobre qual canal, qual campanha, qual prompt produziu qual dólar.

Não dá para entregar prestação de contas no padrão da engenharia sem infraestrutura no padrão da engenharia. O mercado de trabalho já sabe disso. O organograma é o último a descobrir.

Os Dois Números Que Definem a Cadeira

Dois pontos de dado, vindos de setores distintos, contam a mesma história.

O primeiro é do Boathouse, divulgado pelo SmartBrief: 60% dos CEOs classificam o marketing como centro de custo, contra 35% no ano anterior. A interpretação de Sonia Chung, Chief Strategy Officer da firma, é a frase a guardar: “CEOs querem impacto em receita e prestação de contas financeira, enquanto muitos CMOs ainda reportam em linguagem de marketing.” Tradução: a lacuna de linguagem é a lacuna de credibilidade. O CEO está lendo P&L; o CMO está apresentando alcance.

O mesmo estudo apontou que CMOs enfrentam 4× mais cobrança por ROI de IA do que outros executivos. Leia duas vezes. Não é “tanto quanto”. É quatro vezes. O marketing foi a primeira função em que ferramentas de IA se espalharam de forma ampla — geração de conteúdo, otimização de mídia, modelagem de audiência, abordagem por agentes — e é a primeira função em que a conta chegou.

O segundo número é do Growth Memo, de Kevin Indig, analisando 946 vagas de SEO e marketing de crescimento publicadas entre dezembro de 2025 e março de 2026. A mediana do prêmio salarial para “IA” no título da vaga é de 27%: US$ 113.625 contra US$ 89.438. É o voto do mercado de trabalho sobre quanto o trabalho vale.

Mas o número mais útil está uma camada abaixo. Apenas 15,5% das vagas trazem IA no título. 59,5% trazem IA na descrição. Filtrar por IA no título faz você perder 80% das vagas em que IA é exigida. No nível diretor e executivo, o prêmio sobe para cerca de US$ 35.250, e 78,3% dessas vagas mencionam IA na descrição. Para vagas com 9+ anos de experiência, 92% mencionam IA; para júnior (0–1 ano), só 40,9%.

O sinal é nítido: o trabalho já é nativo de IA no topo da pirâmide e rotulado como nativo de IA na base. O meio está invisível. O mercado de trabalho repreciou a função inteira e os filtros de recrutamento não acompanharam.

Cobrança no Padrão da Engenharia, Infraestrutura no Padrão do Marketing

O problema estrutural é a distância entre o que está sendo medido e o que pode ser observado.

CEOs perguntam: qual investimento em IA produziu qual dólar de receita? Em uma organização de engenharia, você responde isso com um ID de deploy, uma feature flag, um trace de requisição, um evento de receita e uma chave de junção. A resposta não é perfeita, mas é auditável. Você consegue mostrar o caminho.

Em marketing, a mesma pergunta bate na parede. A plataforma de mídia que rodou a campanha guarda a atribuição da conversão. O CDP que segmentou a audiência guarda outra versão. O agente que escreveu o e-mail não guarda nenhuma das duas. O CMS que hospedou a landing page pode ou não ter logado o prompt que gerou a manchete. O CMO é cobrado a atribuir um número cuja cadeia de evidência mora em cinco fornecedores e uma planilha do Google.

Já escrevemos sobre isso em o loop de atribuição que você não consegue auditar. O agente do lado da marca que personalizou um e-mail há duas semanas não consegue dizer por quê. A cadeia de raciocínio se foi. O prompt se foi. APIs de fornecedores devolvem a saída renderizada, não o caminho que o modelo percorreu para produzi-la. Prestação de contas em padrão de engenharia exige observabilidade em padrão de engenharia. O marketing recebeu a primeira sem a segunda.

Não é falha do CMO. É falha da ferramenta sendo contabilizada como falha do CMO.

O Mercado de Trabalho Vê a Função em Duas Camadas

O prêmio de 27% não é curiosidade. É o mercado separando duas espécies de profissional de marketing.

A primeira camada é o marketeiro que opera agentes de IA do lado da marca da mesma forma que um SRE opera um serviço em produção. Sabe descrever o stack. Sabe auditar os prompts. Sabe mostrar o que foi publicado, o que foi recolhido e por quê. Josh Peacock, citado na análise do Growth Memo, nomeia o que está sendo pago: “sistemas escaláveis construídos com IA” combinados com “julgamento de precisão”. O prêmio é pago pela combinação, não pela palavra-chave.

A segunda camada é o marketeiro que usa ferramentas de IA do jeito que a função sempre usou ferramentas — pela interface do fornecedor, aceitando as métricas do fornecedor, reportando alcance e engajamento para um CEO que está lendo aquilo como custo.

A diferença salarial (+27% mediana, +US$ 35.250 para diretor) é a aposta do mercado de que, em três anos, só vai existir a primeira camada. A taxa de menção a IA de 92% em vagas com 9+ anos de experiência é a mesma aposta, paga adiantado. Quando a maior parte das organizações de marketing terminar de incluir AEO no slide de estratégia, o pool sênior de profissionais já terá sido reclassificado.

O problema dos 80% de IA invisível piora a situação para a função. Um CMO tentando contratar a primeira camada pelos filtros padrão de recrutamento — buscar “diretor de marketing IA” — vai ver 20% do pool disponível. Os outros 80% estão em vagas em que IA aparece na descrição, mas não no título, porque o gestor escreveu a vaga como sempre escreveu vagas. O filtro que importa não é “IA no título” e sim “IA modelando o trabalho”. Esse filtro não existe na maioria dos ATS.

O Que a Cadeira É De Fato Agora

A cadeira de CMO em 2026 é a cadeira de liderança de engenharia que o marketing não pediu e ainda não está estruturado para ocupar.

Olhe para os quatro andares de prestação de contas que a cadeira agora carrega:

Rastreabilidade de receita. Cada dólar atribuído ao marketing precisa sobreviver a uma auditoria do CFO. A reclassificação de 60% como centro de custo é o que acontece quando a rastreabilidade de receita falha. A correção não é melhor reporting; é infraestrutura auditável debaixo do reporting.

Defesa do ROI de IA. 4× mais exposição a ROI de IA do que qualquer par significa que o CMO é o primeiro executivo que precisa responder por gasto autônomo. Quando um agente do lado da marca escreve 10.000 e-mails personalizados no trimestre, o CMO é quem pode ser questionado, linha por linha, sobre quanto cada um custou e quanto cada um trouxe. Ao CTO se pergunta sobre sistemas. Ao CMO se pergunta sobre as decisões que os sistemas tomaram.

Talento em duas camadas. O prêmio de +27% é uma estrutura permanente de remuneração em duas camadas dentro de uma única família de cargo. CMOs precisam de uma faixa salarial que reflita isso, um funil de contratação que encontre os 80% de profissionais fluentes em IA invisíveis, e uma trilha de desenvolvimento que mova pessoas da segunda camada para a primeira. Nada disso é resolvido pelo framework de carreira padrão do RH, que assume que o cargo é um cargo só.

Governança de fornecedores. A cadeia de atribuição com cinco fornecedores é um problema de compras e integração que vive dentro do marketing. A engenharia chamaria isso de “estratégia de plataforma”. O marketing historicamente chamou isso de “relacionamento com a agência”. A cadeira agora exige a primeira linguagem, não a segunda.

Esses quatro andares têm a mesma forma dos andares que a engenharia construiu uma década atrás. Argumentamos no stack de contenção de agentes que a engenharia ergueu os andares em uma ordem específica: computação, dados, conhecimento, identidade. O marketing também precisa erguer os seus — em ordem distinta, em ritmo distinto, mas como andares, não como objetivos trimestrais.

O CMO que constrói os andares vira o equivalente a CTO da função. O CMO que reporta alcance para um CEO que está lendo P&L permanece na coluna de centro de custo.

O Movimento Que Fecha a Distância

Não há truque. Há um movimento estrutural.

Pare de operar a função de marketing como uma operação de campanhas e canais com ferramentas de IA acopladas. Comece a operá-la como um sistema medido, auditável e observável que, por acaso, faz trabalho de marca. A virada é a mesma virada que a engenharia fez entre 2010 e 2020, quando deixou de ser uma operação de envio de código e virou uma operação de plataforma. A cadeira de CTO mudou porque o trabalho mudou. A cadeira de CMO está no mesmo ano-zero.

Concretamente, três coisas se movem.

A linguagem do reporting muda de alcance e engajamento para eventos de receita com trilha de auditoria. Não porque alcance e engajamento estão errados, mas porque não é o que está sendo perguntado. O CEO está lendo o mesmo dashboard que o CFO lê. O CMO que reporta nessa linguagem deixa de ser centro de custo no slide.

O filtro de contratação muda de título de cargo para evidência em currículo. Como o Growth Memo recomenda aos candidatos: evidência de IA no terço superior do currículo. Do lado da contratação, o movimento é duplo: ler a descrição, não o título; formalizar a faixa salarial em duas camadas; e rodar o funil contra os 100% do pool, não os 20% que dizem “IA” primeiro.

A infraestrutura muda de painéis de fornecedores para uma camada de observabilidade de marketing controlada pelo CMO. Argumentamos em legibilidade-máquina como KPI de marketing que a superfície que o marketing produz é hoje consumida tanto por agentes quanto por humanos. A implicação aqui é a mesma: a função precisa da plataforma, não só da campanha.

Os CEOs não estão errados em cobrar do marketing prestação de contas em padrão de engenharia. A IA tornou essa cobrança possível e inevitável. O que os CEOs estão errados em assumir é que a função já tem a infraestrutura para entregar. Não tem. Os CMOs que a constroem viram os próximos CTOs. Os que não constroem ficam nos 60%.

A cadeira foi reescrita. O assento serve no engenheiro.


Fontes

A Victorino ajuda lideranças de marketing a adotar a infraestrutura de observabilidade e prestação de contas que o ROI de IA agora exige: contato@victorino.com.br | www.victorino.com.br

Todos os artigos do The Thinking Wire são escritos com o auxílio do modelo LLM Opus da Anthropic. Cada publicação passa por pesquisa multi-agente para verificar fatos e identificar contradições, seguida de revisão e aprovação humana antes da publicação. Se você encontrar alguma informação imprecisa ou deseja entrar em contato com o editorial, escreva para editorial@victorino.com.br . Sobre o The Thinking Wire →

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